
João Canijo queria filmar a
relação de grupo entre mulheres e o pretexto foi uma peregrinação a pé a
Fátima, "a ideia mais portuguesa das ideias portuguesas", como contou
à agência Lusa, a propósito da próxima longa-metragem.
É de Vinhais, no distrito de
Bragança, que parte a narrativa do filme e também a peregrinação mais longa até
Fátima, com mais de 400 quilómetros.
"Não começou por ser um
filme sobre a crença, mas sobre as relações de grupo. E as relações de grupo
entre mulheres parecem-me muito mais interessantes do que com homens à
mistura", explicou João Canijo.
No filme participam as
atrizes Rita Blanco, Anabela Moreira, Cleia Almeida, Vera Barreto, Teresa
Madruga, Ana Bustorff, Teresa Tavares, Alexandra Rosa, Íris Macedo, Sara Norte
e Márcia Breia.
O realizador, que já
trabalhou com grande parte destas atrizes em filmes como 'Sapatos Pretos'
(1998), 'Mal nascida' (2007) e 'Sangue do meu sangue' (2011), quis ainda filmar
a relação de cada uma das mulheres com a fé.
"A necessidade da fé, a
necessidade que a Humanidade tem de algum tipo de fé. Não é forçosamente a
católica, a Humanidade sempre teve essa necessidade de acreditar em algo
transcendente e isso foi uma coisa que me interessou muito, perceber porquê. Não
pretendo explicá-lo, mas perceber até onde é que isso pode levar as
pessoas", disse o realizador.
Para este filme, João Canijo
fez ele próprio uma viagem a pá a Fátima, mais curta - de 80 quilómetros -,
para perceber o que sente e sofre quem faz esta peregrinação.
Apesar de 'Fátima' ter uma
base documental, o realizador alerta: "Foi tudo absolutamente
estudado". Embora não tenham feito os 400 quilómetros da peregrinação, as
atrizes "andaram durante cinco dias sempre juntas e foram filmadas o tempo
todo", incluindo a chegada, a 12 de maio, ao santuário de Fátima.
"Portanto, confunde-se,
como em tudo, o personagem com a 'persona', mas isso é sempre assim. Os atores
nunca saem de si próprios, não se transformam em mais ninguém. E essa confusão
também me agrada bastante", disse.
Anabela Moreira explicou à
Lusa que a preparação para este filme teve várias fases. As atrizes
acompanharam várias peregrinações e também falaram sobre a relação delas
próprias com a fé. Só depois é que trabalharam no argumento com base nessa
informação toda.
"O João fala sempre:
'Não é mimetização é deixar contagiar. Não tentas imitar nada'. Houve uma
dificuldade acrescida, que foi o sotaque. Tentar ser contagiado por aquela
forma de estar, de ver o mundo, de pensar sobre deus, sobre a vida, sobre as
pessoas sobre o comportamento da mulher e do homem", recordou a atriz.
No caso de Anabela Moreira,
a criação da personagem implicou trabalhar num supermercado e no campo, a
cuidar de porcos e vacas.
"É um privilégio poder
trabalhar assim. Em vez de estar a trabalhar sobre a imaginação, ganhas
memórias reais daquela outra vida no dia-a-dia. Acabas mesmo por viver aquilo.
Aquilo foi parte da minha vida", disse.
Antes de chegar aos cinemas,
'Fátima' será mostrado em antestreia em Vinhais.
No final do ano deverá
estrear-se na RTP uma série baseada na rodagem e que, segundo João Canijo, tem
mais desenvolvimentos ficcionais de cada uma das personagens.
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