quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

"Um dos meus maiores sonhos é sentir-me livre no meu próprio país"



Salvador Mendes de Almeida é o entrevistado de hoje do Vozes ao Minuto. Salvador Mendes de Almeida tem 35 anos e é fundador da Associação Salvador. Com o intuito de ajudar Portugal a ser um país com mais acessibilidades, continua a lutar pelos direitos das pessoas com deficiência motora e a proporcionar-lhes melhorias na qualidade de vida e no processo de reabilitação.

Quinze anos depois da fundação da Associação, Salvador deu uma entrevista ao Notícias ao Minuto, em que garante que é uma pessoa feliz e realizada, apesar de ainda acreditar numa cura, mas não de forma tão "vidrada" como quando era mais jovem.

Aprendeu a viver com as consequências do acidente de mota que teve aos 16 anos e que o deixou tetraplégico, e é um exemplo da sociedade portuguesa, tanto pela sua força de vontade e superação, como pela forma como ajuda os outros.

Aos 35 anos, salvaguarda que a Associação lhe traz um misto de sentimentos, frisando que dá muito a quem mais precisa mas que o sorriso e melhoria de vida dessas pessoas lhe dá muito a si também. Um sentimento mútuo que não o deixa baixar os braços. 

A sua vida mudou naquele dia 2 de agosto 1998. O que recorda da noite do acidente?

Recordo-me de uma noite igual a tantas outras, com amigos, na flor da minha adolescência, sem pensar muito nisso mas achando que os acidentes e as coisas drásticas só acontecem aos outros. Já tinha caído de mota, já tinha caído a cavalo, era jogador de râguebi, partia-me todo e achava que a mim nunca me acontecia nada mas, de facto, é quando nós menos esperamos que as coisas acontecem. Mas, felizmente, não são só as coisas más que acontecem, também acontecem muitas coisas boas. A minha história é um bocadinho assim, ao início é difícil, há uma fase de adaptação, partir para um mundo desconhecido. Resta-nos ter o apoio da família, ajudou-me muito ter sido crente para me ajudar a procurar um sentido. À medida que me fui descobrindo, fazendo a minha vida, percebi que ainda havia muitas coisas para mudar e para fazer... E, em vez de assobiar para o lado e dizer que está tudo mal, foi um 'vamos lá fazer'. Mas na altura acreditou que tudo voltaria à normalidade dentro de pouco tempo?

Sim, ao início sim.

Na altura do acidente era muito jovem, houve muita coisa que perdi, mas também houve muita coisa que ganheiA juventude ajudou a atenuar a situação ou, pelo contrário, tornou tudo mais difícil?

No meu caso, acho que ajudou a atenuar. No início, ajudou a atenuar porque com 16 anos a minha maturidade não era a de uma pessoa de 20 e muitos ou 30 anos, é diferente. Com 16 anos estava nos planos que, um dia, ia acabar o meu curso, formar-me, ser autónomo, independente, ter um trabalho que gostasse, mas não fazia planos a longo prazo.
O facto de ter tido o acidente jovem ajuda a lidar melhor com a situação, a relativizar. Mas a vida continua e também pensamos que, de facto, na altura do acidente era muito jovem, houve muita coisa que perdi, mas também houve muita coisa que ganhei. As pessoas que fui conhecendo, as oportunidades que tive de viajar, de conhecer outras realidades. E as pessoas que me acompanham, família, amigos e as pessoas novas que fui conhecendo desde que fundei a Associação.
Quando é que percebeu que a situação poderia ser mais definitiva do que passageira?
Passados três anos. Passado um ano ou dois anos já sabia que era uma situação definitiva e que podia vir uma cura, mas não sabemos quando ela vem. Hoje em dia fala-se muito em investigação, mas o que tenho aprendido é que temos de viver com aquilo que temos, com aquilo que conseguimos fazer e o meu foco tem sido esse.
Cinco anos depois do acidente, decidiu dar início à Associação Salvador. Em que momento decidiu que tinha de usar o seu exemplo para ajudar os outros?

Não foi bem a pensar no meu exemplo específico, mas a minha luta naquela altura foi em pesquisar coisas que faziam sentido para mim, para fazer desporto, para poder trabalhar, para haver mais acessibilidades e, felizmente, o meu pai teve a oportunidade de viajar para outros países e ver que havia outras realidades bem diferentes. Então, o nosso foco era muito esses, trazer para Portugal coisas que fizessem sentido. No início, a ideia da Associação até era angariar verbas para que não tivesse possibilidade de fazer reabilitação, poder fazê-la e de uma forma mais regular.

À medida que o tempo foi andando e que eu fui ao encontro desta realidade, vi que havia tantas coisas para fazer e foi assim que me tornei mais conhecido da sociedade.

O nome Salvador tornou-se incontornável na sociedade portuguesa por tudo o que tem feito na Associação à qual dá nome. Era muito novo quando a associação começou, foi o momento certo?

Era uma coisa que eu queria muito e pela qual sempre lutei. Tive sempre o impulso e o apoio do meu pai e, sem sombra de dúvidas, que sem ele não tinha condições nem força para chegar onde as coisas estão hoje. Acho que na vida, tal como os acidentes, cada coisa tem de acontecer na hora certa.
Lembro-me que alguma das coisas que me criava algum descontentamento é que criei a Associação em 2003 e só em finais de 2007/08 é que consegui constituir uma equipa que conseguisse desenvolver projetos e iniciativas capazes de ajudar pessoas com deficiência.
O que é que faltava?
Faltavam apoios, pessoas necessárias para desenvolver o projeto e só quando percebi que tinha de me dedicar e fazer uma coisa profissional que, de facto, a Associação arrancou para mudar vidas.
Para quem se depara com uma situação deste tipo, qual o apoio dado pela Associação?
Nós temos vários tipos de apoios, desde manual de informações, apoios diretos a pessoas que não têm forma ou acesso a ter uma cadeira de rodas, um andarilho, um computador ou casa de banho adaptada. A Associação desenvolve ao longo do seu ano um conjunto de iniciativas que apoiando pessoas com deficiência motora. "Quero fazer de Portugal um país acessível a todos”, disse. Passo a passo, tem visto as diferenças no nosso país?

Acho que sim, tenho visto essa mudança, mas confesso que nunca esperaria que essa mudança demorasse tanto tempo, porque uma das coisas que mais me entristece e uma das barreiras que tenho mais dificuldades em lidar é a das acessibilidades, com a falta das acessibilidades e com a falta de sensibilidade das pessoas para lidar com este problema. Eu quero acreditar que as pessoas são sensíveis a este tema, mas depois no dia a dia há poucas pessoas a tomarem as medidas certas para mudarem esta situação.

Nós temos uma lei das acessibilidades que dura há 20 ou 30 anos e não há quem a fiscalize. Felizmente, vai havendo mais sensibilização e pessoas sensíveis a esse tema, fruto de muita ajuda da comunicação social, mas a mudança ainda demora.

Apesar da sensibilidade de cada um, tem de ser o Governo a ter mais medidas e a fiscalizar mais?

Sem sombra de dúvidas. Tem de ser o Governo a fiscalizar, mas todos nós enquanto cidadãos e participantes de uma sociedade, não podemos estar à espera das leis e que o Governo anda com uma arma apontada. 'Se abrir um restaurante tem de ter as acessibilidades, porque depois vem o fiscal...'. Não, eu se quiser abrir um restaurante vou fazer bem feito e com acesso para todos. Mas varia muito da sensibilidade e de zona para zona. Mas acho que, a pouco e pouco, têm-se notado algumas mudanças.

Tenho visto uma evolução mas a sociedade está longe de estar preparada para integrar pessoas com deficiênciaA sociedade não está preparada para integrar totalmente pessoas com deficiência?

Não, está longe disso. Tenho visto uma evolução mas está longe de estar preparada. A sociedade está preparada para, em algumas zonas, as pessoas poderem fazer a sua vida, passear, mas para fazer a sua vida autonomamente é muito difícil.

Felizmente, Portugal é um país muito solidário e há sempre alguém que ajuda a que essas pessoas tenham uma vida ativa e normal, mas estamos longe de ser totalmente acessíveis.
A Associação Salvador tem ajudado centenas de pessoas na integração e melhoria da qualidade de vida. Como reage a cada conquista?

Reajo com muita satisfação porque, de facto, é um projeto que eu não fazia ideia que com a ajuda de uma grande equipa pudesse mudar tantas vidas e ajudar tanta gente. É com grande satisfação que nós ajudamos, mas como costumo dizer cada caso é um caso e muitas vezes são essas pessoas que nós ajudamos, que nos ajudam, a mim e à minha equipa...

É um sentimento mútuo?

É um sentimento mútuo. Nós na vida estamos cá para dar e receber e felizmente trabalhamos numa área em que isso acontece mais vezes. É um sentimento muito válido e de grande satisfação, porque nós ao ajudar também ganhamos muito. É uma área muito cativante e facilmente apaixonante porque, de facto, quando vemos as coisas a mudar e o sorriso na cara das pessoas preenche-nos a alma e permite-nos a nossa realização profissional e pessoal.
Ainda acredita que, um dia, a sua condição pode melhorar com a cura de que falava há pouco?
Sim, acho que pode acontecer, não estou é tão vidrado como estava no início porque pensava muito mais vezes nisso.
Sente-se feliz?
Sim, sou feliz.
Que sonhos é que ainda tem por realizar?
Ainda estão muitos sonhos por realizar. Mas sem sombra de dúvida que um dos meus maiores sonhos é sentir-me livre no meu próprio país, conseguir andar, conseguir viajar, fazer a minha vida sem depender tanto de outras pessoas e isso é uma coisa que ainda há muito para batalhar.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Homenagem aos Xutos & Pontapés



Cerca de mil músicos profissionais e amadores vão participar numa atuação coletiva, no verão, na região de Lisboa, de homenagem aos Xutos & Pontapés, disse hoje à agência Lusa um dos promotores, Pedro Brazão. "É uma homenagem completamente genuína, porque os Xutos são os nossos heróis e merecem uma homenagem a sério, verdadeira, dos fãs, nada institucional", afirmou.
Em data ainda a anunciar, possivelmente em julho ou setembro, o que vai acontecer é uma atuação conjunta de pelo menos um milhar de músicos, para interpretarem em conjunto o tema "Não sou o único", que será registado em vídeo, entregue aos Xutos & Pontapés e partilhado 'online'.
A iniciativa, que está a ser preparada há apenas três semanas, inspira-se numa ação semelhante realizada em 2015 por mil músicos, em Cesena, Itália, que tocaram "Learn to fly" para convencer o grupo rock norte-americano Foo Fighters a tocar naquela localidade.
O mote para o evento português - intitulado Xutos1000 - surge também em reação à morte do guitarrista Zé Pedro, em novembro passado.
Segundo Pedro Brazão, Xutos1000 não será um concerto, mas apenas a interpretação daquela música dos Xutos & Pontapés, para a gravação de um vídeo que ocupará várias horas do dia.
As inscrições para o evento deverão abrir na próxima semana, na página xutos1000.com, mas Pedro Brazão revela que já há pelo menos 2.000 pessoas interessadas, tanto de Portugal como do estrangeiro, entre há músicos profissionais, estudantes de música, fãs dos Xutos, cidadãos anónimos.
Há um núcleo de organizadores, unidos pela admiração ao grupo rock português, que está a tratar da logística e da organização dos arranjos e das pautas a distribuir depois a todos os que se inscreverem.
Na atuação são esperados centenas de bateristas, guitarristas, baixistas, cantores, que terão de ensaiar individualmente a partir das pautas que lhes serão entregues. Os ensaios finais só acontecerão no dia da gravação, por razões de organização.
De todo o repertório dos Xutos & Pontapés, "Não sou o único" foi a música mais consensual, por ser fácil de executar, porque tem letra de Zé Pedro e porque "é um tema belíssimo que tem a ver com o que estamos a fazer", disse o promotor.
Pedro Brazão revelou que os Xutos & Pontapés já foram informados da iniciativa e "mostraram-se entusiasmados com a ideia e intrigados com o desafio".

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Jovem portuguesa com duas novas curtas-metragens produzidas nos EUA



A portuguesa Sara Eustáquio, que se estreou no cinema em 2016 aos 16 anos e que está a estudar Cinema e Vídeo nos Estados Unidos da América, anunciou hoje a produção de duas novas mini curtas-metragens naquele país.
Considerados exercícios técnicos experimentais, ambas foram realizadas no âmbito da sua licenciatura no CalArts e já lhe valeram alguns prémios em festivais internacionais, na maioria de curtas-metragens, de escolas de cinema e de jovens cineastas em início de carreira.
'Creation' é uma carta de despedida e usa um excerto do texto bíblico de Génesis como metáfora, para abordar o desafio da transição para a vida adulta e o que é preciso deixar para trás", explicou Sara Eustáquio à agência Lusa.
Esta 'curta' entrou no circuito de festivais e já foi distinguida com quatro prémios - Melhor Filme de Jovem Realizadora, Melhor Filme Experimental, Melhor Microfilme e Melhor Filme de Estudante de Cinema -, no Global Film Festival, no LA Film Awards e no Lake View International Film Festival, nos Estados Unidos.
Sobre 'Sozinho', a cineasta adiantou que fala "sobre como agarrar em fotografias e tentar contar uma pequena história a partir delas, resultando numa experiência cinematográfica sobre a solidão e a sensação de incompreensão".
'Creation' e 'Sozinho' juntam-se às duas curtas-metagens '4242' e 'Mirror', a primeira das quais produzida por Sara Eustáquio, natural de Torres Vedras, antes da sua partida para os Estados Unidos da América.
"Mirror" foi realizado em agosto de 2016, durante o curso intensivo de Verão em realização cinematográfica que fez na New York Film Academy, em Nova Iorque, e recebeu, entre muitos outros, prémios no Mediterranean Film Festival, em Itália, e no Barcelona Planet Fil Film Awards, que a reconheceu como melhor realizadora.
'4242', com que se estreou no cinema, valeu-lhe 54 prémios e 34 nomeações e foi selecionado oficialmente para competição em 176 festivais internacionais de cinema em 40 países, enquanto 'Mirror' alcançou 82 prémios, 31 nomeações e foi nomeado em 194 festivais internacionais de cinema em 32 países.
Em novembro de 2017, a jovem cineasta recebeu um diploma de reconhecimento atribuído pela cidade de Los Angeles pela sua "dedicação ao desenvolvimento da comunidade local e global, através da arte audiovisual juvenil".
Ainda em 2017, foi distinguida com uma bolsa de estudos da Fundação Walt and Lilly Disney para o seu curso universitário, e recebeu medalha de mérito atribuída pela Câmara Municipal de Torres Vedras, pelo seu percurso cinematográfico.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Curta-metragem de Gonçalo Almeida no festival de Sundance começa hoje



O Festival de Cinema Independente de Sundance começa hoje, nos Estados Unidos, e da programação faz parte, em estreia, o filme 'Thursday Night', do realizador português Gonçalo Almeida. O filme, uma ficção de quase oito minutos, está selecionado para a competição de curtas-metragens, com estreia marcada para sexta-feira.
Inspirado no álbum 'Thursday Afternoon' (1985), de Brian Eno, 'Thursday Night' é um 'thriller' protagonizado por duas cadelas. O filme teve estreia no ano passado no festival Curtas Vila do Conde e foi premiado no Motelx e no Fantastic Fest, no Texas.
O festival de Sundance, considerado um dos mais importantes de cinema independente, decorrerá de 18 a 28 de janeiro na cidade de Park City, no Utah.
Esta é a segunda vez que uma curta-metragem de produção exclusivamente portuguesa é selecionada para a competição.
Gonçalo Almeida, 31 anos, natural de Santiago do Cacém, estudou design gráfico em Portugal e cinema no Reino Unido. Atualmente finaliza a primeira longa-metragem, "Faz-me companhia", rodada no verão passado com Cleia Almeida e Sofia Areosa.